Como missionária metodista na Bolívia, a jovem Helena, em entendimento com os responsáveis, planejava, em 1922, transferir-se para o Chile. Ali seu trabalho seria mais proveitoso, no entanto, Deus tinha, para ela, outros planos.
Quando estudante, no Great Boston Union Volunteers, encontrara certo rapaz, que lhe parecera simpático. O contato com ele fora agradável, sem dúvida; mas, não ao ponto de impedir que ela tivesse vindo para a América do Sul, e ele retornasse para o hospital, em Harford, Conn., por mais dois anos. No entanto, exatamente quando ela pensava em ir para o Chile, recebeu dele carta com proposta de casamento; Helena tinha que responder. Na rua lhe veio à mente o versículo que ouvira: “Pela fé; pela fé somente”. Entrou numa agência de cabograma e enviou o “sim”.
Ela, Helena, nascera em Milaca, Minessota, mas fora criada no Missouri. Fizera seus estudos secundários em Wesley School e se formara em 1921. Ele, Donald, nascera em Hazardville, Conn.
A I Guerra Mundial envolvera os Estados Unidos, e, em conseqüência, fizera com que ele prestasse serviços na reserva do exército, por dois verões, de modo que veio a formar-se somente em 1922. O fato é que se casaram e foram para o Perú. Ingleses e americanos tinham equipado o hospital para a missão e recrutaram um médico e uma enfermeira. A missão pagou a viagem, e ambos teriam o sustento do próprio hospital. Após três anos, voltaram aos States, em “furlough”. Não tinham vontade de retroceder ao Perú nas circunstâncias, pois a possibilidade de evangelização era precária. Após ano e meio em que serviram num hospital na pátria, e depois de ter sido ele aceito para ser missionário na China novamente, a porta se abriu. O “Board Foreign of Missions”, da Igreja Presbiteriana, oferecia um lugar. Deus não os quizera, nem na Bolivia, nem no Chile, nem no Peru, nem na China, nem Metodistas, mas os enviara como presbiterianos, ao Brasil. Eis a transferência inesperada para D. Helena, mas transferência determinada por Deus, pois no Brasil ficaram até 1981.
Disposição para dar a vida ao serviço de Cristo – Não foram fáceis os primeiros tempos de Brasil. Antes de tudo, importava para ambos aprender a língua, e, para ele, revalidar o diploma. Para isso importava redigir teses e defendê-las. Exatamente nessa ocasião, nova lei surgiu, exigindo que fossem feitos exames de Português, Geografia e História do Brasil, e mais todas as matérias dos três últimos anos de medicina, com todas as provas. Eram ao todo, dezenove exames para iniciar essa desafiadora tarefa, quando estourou a revolução de 1930. Todo o ritmo do País foi alterado. Houve também greves de estudantes por causa do aumento de taxas. O fato é que entre uma prova e outra Dr. Gordon tinha que esperar dias e dias, num ritmo longo e irregular. Feitas as contas, lá se foram três anos, pois que nova revolução, a de 1932, trouxe mais complicações. Após a realização das provas, importava aguardar a expedição do certificado.
Por outro lado, a Missão tinha uma estratégia, que não agradava. Queria que ele fizesse trabalho itinerante. Ele, porém, treinado em cirurgia, não via como pudesse realizar um trabalho sério. Foi a Burití, em Mato Grosso, onde os missionários tinham estabelecido a escola. Tentava operar, mas o missionário Martin tinha que espantar as moscas... . Não se tratava, pensava ele, de médico buscar os clientes; mas, de fixar-se um ponto estratégico, instalar-se conveni-entemente, e aguardar os pacientes. A missão permitiu que o casal Gordon tentasse essa solução. E foi o que aconteceu. Juntamente com o missionário Ashmum Salley, viajando por Goiás. Detiveram-se em Rio Verde, então com cerca de cinco mil habitantes. Foi o local escolhido, por ser o ponto de cruzamento de estradas. Instalou-se o hospital, modesto, sim, mas, bem servido por um cirurgião, Dr. Donald Gordon, e por uma enfermeira, D. Helena.
Os Gordons estavam dispostos a dar sua vida para o serviço de Cristo, no Brasil. Estavam no lugar que a Providência indicara.
Igreja, Hospital e escola de enfermagem – A primeira Escola Dominical, que nasceu com o hospital de Rio Verde, contava com quinze pessoas. O médico lecionava aos adultos, e a enfermeira, às crianças. E a tradição se firmou. Médicos e enfermeiras foram professores da Escola Dominical. A igreja existia ligada ao hospital; neste, havia culto diário, e trabalho direto e insistente de evangelização.
Os Gordons sentiram que a tarefa crescia, e mais obreiros eram necessários. O remédio não seria contar com gente de fora, de centros maiores; mas formar ajudantes ali mesmo. Não foi fácil; muitos, após receber instrução e recursos, iam para outros lugares. Quanto à enfermeira, não houve alternativa senão criar uma Escola de Enfermagem. Começou com quatro alunas, em regime de internato. Cresceu. Mas, como o espaço não sobejasse, as alunas nunca ultrapa-ssaram a casa dos trinta. E, por outro lado, nunca foram longe em pretensões. Eram auxiliares de enfermagem. A própria D. Helena precisou fazer, em Santos, curso de aperfeiçoamento na Cruz Vermelha. Organizou-se uma biblioteca apropriada, e bem satis-fatória para aquela região interiorana.
O problema de médicos se mostrou mais desafiador. Não era possível conseguir profissional que não viesse de grandes centros. Outro obstáculo era a rotatividade no trabalho, que prejudicava não só na eficiência compensada, aliás, pela dedicação do Dr. Gordon mas também, e sobretudo, na evangelização, o grande alvo de todo o trabalho.
O Dr. Antônio Duarte permaneceu ali cinco anos, e prestou excelente colaboração, até que se retirou para Mato Grosso, primeiramente em Dourados e depois em Cuiabá, onde chegou a ser Secretário da Saúde. O maior cooperador do Hospital foi o Dr. Carlos Patrício. Chegou solteiro e se mostrou crente consagrado. Dois anos depois casou-se tendo em D. Êda, uma companheira ideal, também colaboradora nos trabalhos. Tinham inclinações pedagógicas, e podiam ler inglês e usar a biblioteca, sobretudo após estágio nos Estados Unidos, graças à iniciativa dos Gordons. Permaneceram em Rio Verde quinze anos, os quais Dr. Gordon considerou de “trabalhos memoráveis”.
Rio Verde, a Meca dos enfermos – O médico Donald Covil Gordon, graduado pela Harvard University, jamais descuidou-se de seu preparo. Foi vice-diretor do British - American Hospital (em Lima), diplomou-se pela Universidade de San Marcos (1924-1927), obteve pós-graduação em cirurgia no New York Hospital (1927-1928), chegou a Vice-Diretor do Elkins City Hospital em West Virginia (1928-1929), diplomou-se pela Faculdade de Medicina de Salvador (1930-1932), assumiu a vice-diretoria do Hospital Evangélico Goiano em Anápolis (1933-1934), concluiu pós-graduação em Medicina Tropical no New York City Hospital (1934-1935), foi também fundador e mantenedor do Hospital Evangélico de Rio Verde, de 1936 a 1962.
Acompanhar os milagres de sua medicina no interior do Brasil é tarefa impossível de descrever. Não é impossível, nem demais, lembrar que Rio Verde se tornou a Meca dos acidentados, dos baleados, dos viciados, e de toda uma imensa legião de enfermos de toda sorte. Desde o arrancar de dentes, até as intervenções cirúrgicas mais desafiadoras, foram tarefas cotidianas, para um Corpo Clínico que, no tempo dos Gordons, chegou a ter cinco médicos.
Trabalho médico e trabalho da Igreja cresciam maravilhosamente bem entrosados. O missionário da região, no início, Rev. Ashum Salley, e, depois, seus sucessores, deram as mãos aos Gordons, viajando de Jataí para Rio Verde. O trabalho cresceu, de modo que, em 1953, se organizou a Primeira Igreja Presbiteriana, com pastor residente - O Rev. Augusto Araújo. Uma das Congregações cresceu e se tornou em Segunda Igreja Presbi-teriana, cujo pastor, foi o Rev. Severino Gomes Monteiro.
Além do que fazia no Hospital, na Igreja e no Lar, D. Helena achou tempo para ensinar no Ginásio. O Padre dava aula para Católicos; D. Helena, ensinava Bíblia aos demais. Ao todo, em Rio verde, o casal trabalhou vinte e seis anos; até que foi alcançado pela Jubilação Compulsória.
Família? Qual delas? – Em 1953, os Gordons estiveram nos EUA, menos Hope, que permanecera no Brasil, em Jandira (SP), como secretária e tesoureira do Colégio José Manuel da Conceição. Gary, formara-se em Física, pela Harvard University; e especializara-se em Raios Cósmicos. Alan, estudara no Wesleyan Station, Middletown, Conn. Alma, na Wheaton Academy, Wheaton, ILL., preparava-se para estudos posteriores.
Os pais, após um “turlough”, arrumavam as malas, em Nova York, para retornarem a Rio Verde. Passaram o Natal juntos, todos, e, enviaram uma carta-circular aos amigos de lá e de cá.
Os Gordons tiveram muitos outros filhos..., adotivos. Uma das primeiras crianças cuja preparação tomaram a seu cargo foi Maria Bueno, depois Maria Bueno Monteiro, pois se casou com o Pastor, Rev. Severino, também pupilo dos Gordons. Maria estudou na Escola de Enfermagem Cruzeiro do Sul e fez estágio na Escola de Enfermagem Ana Nery, em Santos. Deu vinte e quatro anos de serviço ao Hospital. “Valia a pena trabalhar com ela”, disse certa vez Dr. Gordon. “Fazia milagres”; seu filho Donald é musicista e também pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil.
Lucy também cursou o Ana Nery, e depois, foi para o Rio. Muito ajudou ao Dr. Fanstone, em Anápolis. Aurora, de Rio Verde, começara como protegida e os deixara, quando eles viajaram aos EUA, posteriormente, voltou para eles. Estudou em Piracicaba e tornou-se Bibliotecária. Geraldo morou com os Gordons, depois estudou no J.M.C. Ingressou-se na Aeronáutica, tendo prestado serviços à FAB, no setor de manutenção.
Ao se falar em Família dos Gordons, tem-se que perguntar: qual? A enumeração está incompleta.
Dr. Gordon morreu em Washington, DC. no ano de 1998, com 101 anos de idade, na Home Presbyterian.
Resumo do Rev.
Júlio A. Ferreira é pastor e historiador da Igreja Presbiteriana do Brasil